As quatro grafias, por que, porque, por quê e porquê, têm regras próprias, e a Academia Brasileira de Letras (ABL) descreve cada uma em artigo publicado no portal da instituição. Antes de ler a explicação, vale testar o olho: abaixo estão quatro frases com lacuna e o gabarito logo em seguida.
As frases são autorais, criadas para este texto. Nenhuma delas é questão de prova de concurso, e por isso não há banca nem ano a informar. A regra aplicada em cada uma vem da ABL.
O teste: complete as lacunas
Leia as frases e escolha entre por que, porque, por quê e porquê antes de descer até o gabarito.
- Frase 1: “Ninguém entendeu ___ o prazo mudou.”
- Frase 2: “Perdi a hora ___ o despertador não tocou.”
- Frase 3: “Você desistiu do curso e não explicou ___.”
- Frase 4: “Até hoje não sei o ___ da demora.”
Gabarito e a regra por trás de cada frase
| Frase | Resposta e motivo |
|---|---|
| 1 | por que: pergunta indireta, vale por “por qual razão” |
| 2 | porque: liga duas orações e indica causa |
| 3 | por quê: fecha a frase, antes do ponto |
| 4 | porquê: vem com “o” na frente e é substantivo |
Se acertou as quatro, o raciocínio já está montado. Se errou alguma, as seções seguintes mostram o que olhar em cada caso.
Frase 1: quando “por que” aparece separado e sem acento
Segundo a ABL, usa-se “por que” em duas palavras quando se trata de advérbio interrogativo, em pergunta direta ou indireta, valendo por “por que razão” ou “por que causa”. A própria Academia dá como exemplo “Quero saber por que ele não veio ontem”, que é uma pergunta indireta, sem ponto de interrogação.
Na Frase 1, “ninguém entendeu por que o prazo mudou” funciona do mesmo jeito. Dá para trocar por “por qual motivo” sem estragar o sentido, e essa substituição é um bom atalho de conferência.
O mesmo “por que” separado aparece ainda quando é a preposição “por” somada ao pronome relativo, valendo por “pelo qual” e variações. O exemplo da ABL é “A razão por que (= pela qual) ele veio é desconhecida”.
Frase 2: porque junto, para explicar a causa
A ABL indica que se escreve “porque” numa só palavra quando é conjunção causal ou explicativa. O exemplo da Academia: “Não pude sair porque chovia muito”.
Na Frase 2, o despertador que não tocou é a causa de ter perdido a hora. A frase responde a um “por quê?” que ninguém fez em voz alta, e é justamente isso que caracteriza o “porque” de explicação.
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ENTRAR NOS GRUPOS →Frase 3: por quê, com acento, quando a frase termina
Pelo artigo da ABL, escreve-se “por quê” em duas palavras e com acento circunflexo quando o “por que” separado está em posição tônica, ou seja, em último lugar na pergunta direta, seguido de pausa ou sozinho. Um dos exemplos da Academia é “Ele não veio por quê?”.
Na Frase 3, “não explicou por quê” termina a oração. O acento aparece porque a palavra fica no fim, e não porque a frase seja uma pergunta. Também vale quando ele está sozinho, como na resposta curta “Por quê?”.
Frase 4: porquê, o substantivo que aceita artigo
O “porquê” junto e com acento funciona como substantivo e significa “o motivo”, “a razão”. É o caso da Frase 4: “o porquê da demora” equivale a “o motivo da demora”. O sinal mais prático é a presença de artigo, pronome ou outra palavra determinante logo antes: “o porquê”, “um porquê”, “esse porquê”.
Este ponto da regra não pôde ser conferido nesta pesquisa no trecho do artigo da ABL que foi consultado, que trata das três primeiras grafias. A distinção entre os quatro usos é tratada nas gramáticas de referência. A Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, registra que o Vocabulário Oficial manda escrever em duas palavras o advérbio interrogativo “por que”, para distingui-lo da conjunção “porque”. Quem quiser a regra do substantivo na fonte pode consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa no portal da ABL.
Checklist de três perguntas para qualquer frase
- A lacuna está no fim da frase ou antes de uma pausa? Então é por quê.
- Dá para colocar “o” ou “um” antes e trocar por “motivo”? Então é porquê.
- Está no começo de uma pergunta, ou dá para trocar por “por qual razão”? Então é por que. Se estiver explicando uma causa no meio da frase, é porque.
A ordem importa. Começar pelo fim da frase e pelo artigo resolve os dois casos mais fáceis de reconhecer, e sobram “por que” e “porque” para a leitura do sentido.
O que pode confundir na hora da prova
Há uma quinta situação que a ABL também registra: “porque” como conjunção final, seguido de subjuntivo e valendo por “para que”. O exemplo da Academia, “Trabalhou porque proporcionasse à família mais conforto”, mostra um uso que a própria ABL descreve como raro hoje. Em provas, o mais comum é cair a distinção entre os quatro casos do teste acima.
Outro cuidado: a regra descrita aqui vale para a ortografia usada no Brasil. Em Portugal, como explica o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, o advérbio interrogativo se escreve “porque”. Se um texto estrangeiro ou um livro português aparecer na sua leitura de estudo, a grafia pode divergir sem que haja erro.
Para quem monta uma rotina de estudo de português para concursos, treinar com frases autorais como as acima ajuda a fixar o raciocínio antes de partir para questões de provas anteriores, e os cursos de preparação do Pensar Cursos podem entrar como apoio nessa etapa. O Pensar Cursos é o mantenedor deste blog.
Mini simulado para treinar sozinho
Para fixar, tente completar as frases abaixo e confira as respostas na linha seguinte.
- “Não sei ___ ela saiu cedo.”
- “Saiu cedo ___ tinha consulta.”
- “Ela saiu cedo, mas ninguém perguntou ___.”
- “Descobri o ___ da pressa.”
Respostas: por que; porque; por quê; porquê.















