Estudo intercalado venceu o treino em blocos por 63% a 20% de acerto num teste feito uma semana depois do último treino.
O resultado é do Experimento 2 de Doug Rohrer e Kelli Taylor, psicólogos da Universidade do Sul da Flórida (USF), publicado em 2007 na revista Instructional Science. Quem misturou os tipos de exercício errou mais enquanto treinava e acertou bem mais na prova.
O que é estudo intercalado
No treino em blocos, o aluno aprende um tipo de problema e resolve uma série só daquele tipo antes de passar ao próximo. É o formato da maioria das apostilas: capítulo de porcentagem seguido de exercícios de porcentagem.
No estudo intercalado, os tipos aparecem embaralhados na mesma lista. Antes de calcular, o aluno precisa reconhecer qual é o problema e escolher o método. No artigo, os autores chamam de “shuffled” (embaralhados) os livros que misturam nas listas problemas de várias lições anteriores.
O estudo intercalado testado por Rohrer e Taylor não é alternar disciplinas ao longo do dia, como num ciclo de estudos. O experimento misturou tipos de problema do mesmo conteúdo, dentro de uma única lista.
Como foi o experimento com os quatro sólidos
Participaram 18 universitários, sorteados entre dois grupos. Eles aprenderam a calcular o volume de quatro sólidos geométricos: cunha, cone esférico, esferoide e meio-cone. Antes, um levantamento com outros 25 alunos do mesmo grupo de origem mostrou que ninguém acertava esses problemas sem ensino.
| Etapa | Como funcionou |
|---|---|
| Sessões de treino | Duas, com uma semana de intervalo; cada uma com 4 explicações de 45 segundos e 16 problemas |
| Tempo por problema | 40 segundos, seguidos de 10 segundos com a solução na tela |
| Grupo em blocos | Cada explicação era seguida de 4 problemas do mesmo sólido |
| Grupo misturado | Via as 4 explicações primeiro e depois os 16 problemas em ordem aleatória |
| Teste final | 8 problemas novos (2 de cada sólido), 8 minutos, sem correção na hora |
Os dois grupos resolveram a mesma quantidade de exercícios. Mudaram a ordem dos problemas e o momento das explicações.
No estudo intercalado, quem ia melhor no treino foi pior no teste
Durante as sessões de treino, o grupo em blocos acertou em média 89%, e o grupo misturado, 60%. A distância foi grande na primeira sessão (87% contra 43%) e diminuiu na segunda (91% contra 78%), quando deixou de ser estatisticamente significativa. Na prova, a vantagem se inverteu, como mostra o gráfico.

Os autores descrevem isso como uma dissociação: a mistura que melhorou o desempenho na prova atrapalhou o desempenho no treino. Eles ligam o achado ao conceito de “dificuldades desejáveis”, segundo o qual condições que tornam o treino mais difícil podem deixar o aprendizado mais duradouro.
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ENTRAR NOS GRUPOS →Para quem estuda sozinho, o recado do experimento é que acertar quase tudo numa lista em blocos não prova que o conteúdo foi aprendido. O estudo intercalado parece pior no dia e rende mais depois.
Por que misturar exercícios ajuda a escolher o método certo
Na lista em blocos, o método certo já está dado: se o capítulo é de cone esférico, todo problema pede a fórmula do cone esférico. O aluno aplica, mas nunca treina a decisão de qual fórmula usar.
A análise de erros do artigo reforça essa leitura. Segundo os autores, praticamente todos os erros do teste vieram da escolha da fórmula errada. Escolher a fórmula certa e errar a conta aconteceu só duas vezes em todos os problemas do teste.
É essa decisão que o estudo intercalado obriga o aluno a treinar em cada exercício.
Exemplo de lista intercalada para a Matemática do Enem
O modelo abaixo é uma sugestão do Pensar Cursos inspirada no formato do experimento, não um protocolo testado pelos autores. Para montar um estudo intercalado, escolha quatro assuntos que você já estudou e que costuma confundir.
- Separe 4 exercícios de cada assunto, por exemplo porcentagem, área de figuras planas, probabilidade e função do 1º grau.
- Revise rapidamente a explicação dos quatro antes de começar, como fez o grupo misturado.
- Embaralhe os 16 exercícios em ordem aleatória.
- Antes de resolver cada um, escreva na margem qual é o tipo de problema e qual método vai usar.
- Corrija no fim e anote quantos erros foram de escolha do método e quantos foram de conta.
O passo 4 treina a decisão que a lista em blocos esconde. O passo 5 mostra se a sua dificuldade está em reconhecer o problema ou em fazer a conta.
A lista intercalada é, ela mesma, uma forma de autoteste no lugar da releitura. As perguntas da coluna de pistas do método Cornell podem entrar misturadas na mesma sessão, e o guia de como dividir o tempo no Enem 2026 ajuda a treinar o ritmo da prova. Há mais conteúdos na tag dicas de estudo.
Os limites do experimento sobre estudo intercalado
- Amostra pequena: a análise ficou restrita a quem concluiu as três sessões; 15 voluntários abandonaram antes do fim e ficaram de fora.
- Público específico: eram universitários; os próprios autores dizem que o efeito pode ser menor ou nem aparecer em alunos mais novos.
- Tarefa de procedimento: calcular volumes com fórmula, e não entender conceitos.
- Mesmo tipo de problema no teste: a prova cobrou os mesmos quatro sólidos do treino, e o artigo não mediu se o ganho se transfere para questões diferentes.
- Laboratório: os autores pedem replicação em sala de aula.
O resultado não vale como regra para qualquer matéria nem como garantia de nota. Ele se aplica com mais segurança a exercícios de cálculo em que a dificuldade está em reconhecer o tipo de problema.
O que ainda não se sabe
O mesmo artigo traz um primeiro experimento, sobre espaçar o treino em sessões separadas, tema já tratado no texto do autoteste. Os autores não testaram, porém, o estudo intercalado e o espaçamento juntos no mesmo grupo, então o efeito somado das duas técnicas não foi medido.
Também ficam em aberto o efeito em estudantes do ensino médio, em conteúdos de leitura e interpretação e em provas com questões diferentes das treinadas. Para essas situações, a lista intercalada é uma aposta razoável de organização, não um resultado comprovado.
Fontes consultadas
- Rohrer, D.; Taylor, K. “The shuffling of mathematics problems improves learning”. Instructional Science, v. 35, n. 6, p. 481-498, 2007. DOI 10.1007/s11251-007-9015-8. Página do artigo na Springer. Consultado em 26/10/2026.
- Registro do artigo no repositório da University of South Florida (Digital Commons). Resumo e dados da publicação. Consultado em 26/10/2026.
- Texto integral do artigo (cópia em PDF). Arquivo do artigo. Consultado em 26/10/2026.

















