Errar antes de estudar ajudou universitários a lembrar mais: com pré-teste, o acerto foi de 75%, contra 56% de quem só leu.
O resultado é do artigo dos pesquisadores Richland, Kornell e Kao, publicado em 2009 no Journal of Experimental Psychology: Applied. Os estudantes tentaram responder a perguntas sobre um texto que ainda não tinham lido, e esse chute ajudou na hora da prova final.
Faltam 11 dias para o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), marcado para 8 de novembro, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A técnica pode entrar na revisão final, com os cuidados que o próprio artigo aponta.
Como foi o experimento do pré-teste
No primeiro experimento, 63 universitários leram um texto de duas páginas baseado num ensaio de Oliver Sacks sobre acromatopsia cerebral, a perda da visão das cores causada por lesão no cérebro. Eles foram divididos em dois grupos, com o mesmo tempo total diante do material.
| Grupo | O que fez em 10 minutos |
|---|---|
| Pré-teste | 2 minutos para tentar responder 5 perguntas sobre o texto, depois 8 minutos de leitura |
| Estudo prolongado | Os 10 minutos inteiros lendo o texto |
No pré-teste, os alunos acertaram apenas 5% das questões. Os pesquisadores tiraram da análise, aluno por aluno, as perguntas respondidas corretamente nessa etapa. Por isso, o ganho medido no fim vem só das respostas que estavam erradas.
O que o teste final mostrou
A prova final reunia 10 perguntas, as 5 de cada versão do pré-teste. Quem passou pelo pré-teste foi melhor justamente nos itens que tinha visto antes de ler. Nos itens que não apareceram no pré-teste, o mesmo grupo ficou em 50%; segundo os autores, a diferença em relação a quem só leu, nesse caso, não foi significativa.
Esse detalhe pesa na hora de usar a técnica: o ganho ficou concentrado no que foi perguntado antes. O que ficou fora das perguntas não teve o mesmo reforço.
Os autores resumem assim: “failed tests can enhance learning for educational content”, ou seja, testes em que o aluno falha podem melhorar a aprendizagem de conteúdo escolar.
O efeito depois de uma semana
O artigo traz outros quatro experimentos; dois deles ajudam a entender o efeito. No quarto, com 158 participantes, a prova final foi aplicada uma semana depois da leitura. Os itens com pré-teste e destacados em negrito tiveram 55% de acerto; os itens só em negrito, no grupo que apenas leu, ficaram em 45%. Nos itens sem pré-teste e sem negrito, a distância foi pequena: 42% contra 39%.
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ENTRAR NOS GRUPOS →No quinto experimento, com 76 participantes analisados e prova logo após o estudo, um terceiro grupo apenas memorizou as perguntas, sem tentar respondê-las. Tentar responder e errar rendeu mais (90%) do que decorar as perguntas (78%) e do que só ler (63%). Para os autores, o benefício vem da própria tentativa de lembrar, e não apenas de prestar mais atenção.
Pré-teste na revisão do Enem: roteiro de 10 minutos
O desenho do estudo cabe numa sessão curta. A adaptação abaixo é uma sugestão do blog, sem promessa de nota:
- Escolha um texto curto sobre o tema que vai revisar, como um resumo do livro didático.
- Antes de abrir, escreva de 3 a 5 perguntas sobre o assunto e tente respondê-las em 2 minutos, mesmo chutando.
- Leia o texto por 8 minutos procurando as respostas.
- Corrija suas respostas e anote o que errou.
Um exemplo com Ciências Humanas, antes de ler sobre a Revolução Industrial: em que país ela começou? Que fonte de energia movia as primeiras máquinas? O que mudou na rotina de quem trabalhava nas fábricas? O roteiro tem duas diferenças em relação ao estudo: lá, as perguntas foram feitas pelos pesquisadores, e o texto era inédito para os alunos. Nem a criação das próprias perguntas nem o uso em conteúdo já visto foram testados.
Para montar as perguntas, questões de provas anteriores ajudam. O blog já explicou como intercalar tipos de exercício, como funcionam as questões em bloco no Enem 2026 e como o método Cornell transforma anotações em perguntas de revisão. Há mais técnicas na tag dicas de estudo e no guia da reta final do Enem 2026.
Os limites do estudo
O efeito apareceu em laboratório, com estudantes de graduação e só com perguntas sobre fatos de um texto, como os autores reconhecem. Ninguém fez o Enem nem uma prova longa dentro da pesquisa.
Os próprios autores avisam que “future studies are necessary to ensure that the results generalize across diverse texts” (são necessários novos estudos para garantir que os resultados valham para textos diferentes) e que falta demonstrar que esse tipo de teste funciona em sala de aula. O artigo também lembra que o material não fazia parte das disciplinas que os participantes cursavam.
Fontes consultadas
- Richland, L. E.; Kornell, N.; Kao, L. S. “The Pretesting Effect: Do Unsuccessful Retrieval Attempts Enhance Learning?”. Journal of Experimental Psychology: Applied, v. 15, n. 3, p. 243-257, 2009. Leia o artigo em PDF.
- Inep. “Enem 2026: participantes já podem conferir os locais de prova”, 27/10/2026. Acesse a notícia.


















