Ler em voz alta ajuda a fixar informações na memória quando só uma parte do material é falada. É o que mostram experimentos da Universidade de Waterloo, no Canadá, que estudam o chamado efeito de produção com listas de palavras.
A vantagem nasce do contraste. A palavra dita em voz alta se destaca no meio das lidas em silêncio. Quando tudo é falado, esse destaque some, e o ganho também.
A versão anterior deste texto apresentava como recente um estudo divulgado pela universidade em dezembro de 2017 e citava 95 participantes; esse foi o número de quem fez a primeira etapa, e não o de quem concluiu a pesquisa, como mostra o artigo completo. Os dados abaixo foram conferidos nos dois artigos originais.
O que é o efeito de produção ao ler em voz alta
Os pesquisadores chamam de efeito de produção a vantagem, para a memória, de estudar uma informação em voz alta em vez de lê-la em silêncio. A principal explicação, segundo os autores, é a distintividade: falar deixa um registro diferente na memória, e na hora do teste a pessoa usa essa pista, algo como “lembro de ter dito isso, então estava na lista”.
Por isso o efeito aparece quando a mesma pessoa estuda parte das palavras falando e parte calada. Quando se comparam grupos diferentes, um que leu tudo em voz alta e outro que leu tudo em silêncio, a vantagem não aparece, como os autores lembram ao revisar pesquisas anteriores.
O experimento de 2010 com listas mistas
Jason Ozubko e Colin MacLeod publicaram o teste na revista Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition. No primeiro experimento, 36 estudantes viram duas listas de 32 palavras cada. A primeira era mista: metade das palavras, em azul, devia ser lida em voz alta, e a outra metade, em branco, em silêncio.
A segunda lista era toda falada para metade dos alunos e toda silenciosa para a outra metade. No teste final, cada um precisava indicar, apertando uma tecla, de qual lista vinha cada palavra.

Com a segunda lista lida em silêncio, as palavras faladas da lista mista tiveram 76% de acerto, contra 65% das silenciosas. Com a segunda lista toda falada, a vantagem sumiu: 56% para as faladas e 62% para as silenciosas. Um segundo experimento, também com 36 estudantes e com a lista extra estudada antes da mista, repetiu o padrão: 77% contra 50% no primeiro cenário e 62% contra 64% no segundo.
Para os autores, o resultado confirma que o ganho vem da distintividade: neste tipo de teste, ter falado só ajuda quando essa lembrança serve de pista para separar uma lista da outra.
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O estudo divulgado em 2017, de Noah Forrin e Colin MacLeod, saiu na revista Memory e foi o tema da nota da Universidade de Waterloo. Ele separou o que pesa mais: o movimento da fala, o som ou o fato de a voz ser a própria.
Os universitários gravaram uma lista de palavras e voltaram duas semanas depois para estudar parte delas de quatro formas, 20 palavras em cada uma, misturadas na mesma sessão. A memória seguiu uma escada:
- ler em voz alta teve o melhor resultado;
- ouvir a própria gravação ficou logo atrás, com diferença apenas marginal em relação a falar;
- ouvir outra pessoa ler veio em terceiro, com resultado inferior ao de ouvir a própria voz, diferença que os autores consideraram significativa;
- ler em silêncio ficou por último.
A distância entre falar e ler calado foi de 12 pontos percentuais nos acertos. Os autores concluem que parte da vantagem vem de a informação ser pessoal, ligada à própria voz, e não só do ato de falar.
| Estudo | Como foi feito |
|---|---|
| Ozubko e MacLeod (2010) | Dois experimentos com estudantes, listas mistas de palavras e teste para apontar a lista de origem |
| Forrin e MacLeod (online em 2017, edição de 2018) | Gravação das palavras numa primeira sessão; estudo e teste de reconhecimento com os 75 alunos que voltaram |
Como usar a leitura em voz alta no estudo
Os estudos testaram palavras, não capítulos de livro. Uma forma de levar a ideia para a rotina, sugestão do blog e não algo testado pelos pesquisadores, é ler em silêncio e falar apenas as definições, datas e fórmulas que você quer guardar, para que o trecho falado seja exceção.
- Marque antes os pontos-chave e combine consigo mesmo que só eles serão lidos em voz alta.
- Para conferir o que ficou, o blog já explicou o autoteste e a revisão espaçada, técnicas avaliadas em outras pesquisas.
Os próprios autores escrevem, no artigo de 2010, que a técnica pode ser útil em situações de estudo e é bem mais fácil de usar do que o efeito de geração, em que a pessoa precisa criar a resposta a partir de pistas. Outra forma de deixar a informação marcante é tentar responder perguntas antes de estudar.
Limites dos estudos sobre ler em voz alta
- Os testes usaram listas de palavras soltas, não textos longos, apostilas ou provas como o Enem.
- As amostras foram pequenas e formadas por universitários de uma só universidade.
- As tarefas foram apontar a lista de origem (2010) e reconhecer palavras estudadas (2017), na mesma sessão do estudo, e não o que fica na memória semanas depois.
- No estudo de 2017, a diferença entre falar e ler calado foi menor que a medida em dois experimentos anteriores de MacLeod, de 29% e 33%; os autores atribuem isso à sessão de gravação, em que todas as palavras já tinham sido faladas.
- Nenhum dos artigos avaliou efeitos na saúde ou na memória de idosos; eles tratam só de aprendizagem em laboratório.
Mais orientações estão na seção de dicas de estudo do blog.
Fontes consultadas
- Ozubko, J. D.; MacLeod, C. M. The Production Effect in Memory: Evidence That Distinctiveness Underlies the Benefit. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, v. 36, n. 6, p. 1543-1547, 2010. Universidade de Waterloo. Artigo em PDF
- Forrin, N. D.; MacLeod, C. M. This time it’s personal: the memory benefit of hearing oneself. Memory, v. 26, n. 4, p. 574-579, 2018 (publicado online em 2/10/2017). Artigo em PDF
- Universidade de Waterloo. Study finds reading information aloud to yourself improves memory, 1º/12/2017. Nota da universidade

















