O trema caiu de aguentar, cinquenta e tranquilo, mas continua em palavras derivadas de nomes estrangeiros.
A regra está na Base XIV do Acordo Ortográfico, anexo ao Decreto 6.583, de 29 de setembro de 2008. Essa Base, intitulada “Do trema”, traz a regra geral, exemplos oficiais e a exceção.
O que a Base XIV diz sobre o trema
O Acordo chama o trema de “sinal de diérese” e afirma que ele “é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas”. Os dois pontinhos sobre o u, que marcavam grafias como freqüentar, não têm mais lugar nesse vocabulário.
A Base também diz que o sinal “nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas vogais que normalmente formam ditongo”. O exemplo oficial é saudade, “e não saüdade, ainda que tetrassílabo”: mesmo quando o poeta conta quatro sílabas no verso, a palavra fica sem os dois pontos. O mesmo vale para saudar, “ainda que trissílabo”.
Os 12 exemplos oficiais com gu e qu sem trema
A Base XIV dispensa qualquer sinal especial “para distinguir”, em sílaba tônica ou átona, o u de gu ou de qu de um e ou i seguintes. O Acordo tira apenas o sinal gráfico e não trata de pronúncia. Estes são os exemplos que ele dá para esse caso.
| Grupo | Exemplos que aparecem no texto oficial |
|---|---|
| gu antes de e ou i | aguentar, anguiforme, arguir, bilíngue (ou bilingue), lingueta, linguista, linguístico |
| qu antes de e ou i | cinquenta, equestre, frequentar, tranquilo, ubiquidade |
Em bilíngue, o próprio Acordo admite duas grafias, com e sem acento agudo, e nenhuma delas leva trema. A mesma Base cita ainda palavras sem gu ou qu, como arruinar e reunião, também escritas sem sinal algum.
A relação é de exemplos e não reúne todas as palavras afetadas. Quem cita o texto oficial em prova, aula ou revisão deve ficar com os da tabela, os únicos com gu e qu que o Acordo traz nessa Base.
Onde o trema continua: derivados de nomes estrangeiros
Logo depois da lista, uma observação da Base XIV abre a exceção: “Conserva-se, no entanto, o trema, de acordo com a Base I, 3º”, em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros. Os exemplos são hübneriano, de Hübner, e mülleriano, de Müller.
A Base I, item 3º, determina que se mantêm “nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros” as combinações gráficas e os sinais que esses nomes já têm. Os exemplos desse item são comtista (de Comte), garrettiano (de Garrett), jeffersônia (de Jefferson), mülleriano e shakespeariano (de Shakespeare). Assim, mülleriano aparece nas duas Bases, e a regra vale para qualquer grafia estrangeira do nome, não só para o trema.
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ENTRAR NOS GRUPOS →Para memorizar: palavra portuguesa ou aportuguesada não leva trema; palavra derivada de nome próprio estrangeiro que tem trema conserva o sinal.
Desde quando a regra do trema vale no Brasil
O artigo 2º do decreto fixa o início dos efeitos do Acordo em 1º de janeiro de 2009. O parágrafo único, com a redação dada pelo Decreto 7.875/2012, estabeleceu uma transição até 31 de dezembro de 2015, período em que a grafia antiga e a nova conviveram.
A linha do tempo completa, da assinatura em Lisboa ao fim da transição, está no post Acordo Ortográfico foi assinado em 1990 e virou obrigatório só em 2016. Outras mudanças do mesmo texto aparecem em ideia, jiboia e heroico sem acento, em para, do verbo parar, sem acento e nas regras do hífen com prefixo.
Exercício: reescreva 6 palavras com a grafia atual
As palavras a seguir estão como eram escritas antes do Acordo. Reescreva cada uma e confira o gabarito logo abaixo.
- agüentar
- argüir
- lingüeta
- eqüestre
- ubiqüidade
- mülleriano
Gabarito. Itens 1 a 5: aguentar, arguir, lingueta, equestre e ubiquidade, todas sem o sinal, porque são palavras portuguesas (Base XIV). Item 6: mülleriano fica como está, já que deriva do nome próprio estrangeiro Müller (Base XIV, observação, e Base I, 3º).
O item 6 é a pegadinha do exercício, porque contraria a ideia de que o trema desapareceu por completo. Para treinar outras dúvidas de grafia, a tag ortografia reúne os textos do blog sobre o assunto.
Fontes consultadas
- Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008, que promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa; Anexo I, Base I (item 3º) e Base XIV; artigo 2º e parágrafo único. Presidência da República, Planalto. Consulta em 25 de outubro de 2026. Texto no Planalto.
















