Um dos maiores fenômenos climáticos do planeta está em curso e já altera o comportamento das chuvas, das temperaturas e das tempestades em várias regiões do Brasil.
Órgãos oficiais confirmaram sua formação em junho de 2026 e apontam chance elevada de que ele atinja uma das intensidades mais fortes já registradas, com efeitos que devem se prolongar pelo menos até o início de 2027.
O fenômeno já é associado a temporais, enchentes, secas e ondas de calor em diferentes pontos do país, além de riscos à segurança alimentar em escala internacional.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, próximo à costa do Peru, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e da atmosfera em escala global, modificando padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.
Em 11 de junho de 2026, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) declarou o estabelecimento de condições de El Niño no Pacífico equatorial, após anomalias positivas de temperatura registradas desde março.
A confirmação foi incorporada ao Painel El Niño 2026-2027, documento que reúne informações sobre o fenômeno.
O painel é uma iniciativa conjunta do INPE, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).
Por que o fenômeno preocupa e quais são os impactos
No Brasil, os efeitos do El Niño se distribuem de forma desigual pelo território:
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ENTRAR NOS GRUPOS →A região Sul concentra o maior risco de chuvas acima da média, tempestades severas, granizo, vendavais e, em casos mais raros, tornados e microexplosões atmosféricas. O aumento da umidade do solo eleva ainda o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos em áreas já sensíveis a esse tipo de evento.
Já as regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste tendem a enfrentar o cenário oposto, com redução de chuvas, estiagem prolongada e maior propensão a queimadas. A Bacia do rio Paraguai, no Centro-Oeste, é citada como a área com situação hidrológica mais crítica do país.
O Sudeste também deve registrar seca com alguma intensidade, além de temperaturas acima da média e maior ocorrência de veranicos. Ondas de calor devem ocorrer em praticamente todo o território ao longo dos próximos meses, associadas à baixa umidade do ar.
O INPE destaca que o El Niño atua em conjunto com o aquecimento global, o que amplia a intensidade dos eventos extremos. Em nota, o meteorologista do instituto Gilvan Sampaio afirmou que o fenômeno potencializa os impactos já provocados pelas mudanças climáticas.
No plano internacional, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), da Organização das Nações Unidas (ONU), informou que um El Niño de intensidade muito forte pode levar quase 49 milhões de pessoas a mais à insegurança alimentar aguda em 45 países considerados vulneráveis, elevando o total global para cerca de 274 milhões de pessoas até o fim de 2027.
Segundo o PMA, a América Central e a África Austral devem ser as regiões mais afetadas, com aumento de 83% e cerca de 75% no número de pessoas em insegurança alimentar, respectivamente.
Duração prevista e intensidade
De acordo com o segundo boletim mensal do Painel El Niño 2026-2027, o fenômeno deve permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, tendo duração de 6 a 7 meses.
O documento aponta 81% de probabilidade de que o El Niño atinja intensidade muito forte, quando os desvios de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial ficam acima de 2,0°C.
Os modelos indicam que o pico de intensidade deve ocorrer entre a primavera e o verão do Hemisfério Sul, com o verão começando em 21 de dezembro de 2026.
Último El Niño
O último episódio do fenômeno ocorreu entre junho de 2023 e maio de 2024. Ele foi classificado como forte, sem chegar à categoria de “Super El Niño”.
No período, o Brasil enfrentou uma das maiores secas dos últimos anos, com mais de 4,7 mil municípios registrando algum grau de estiagem. Rios da Amazônia, como o Rio Negro, atingiram mínimas históricas em outubro de 2023, e incêndios florestais atingiram extensões recordes na Amazônia e no Pantanal.
Já na fase final do fenômeno, entre abril e maio de 2024, o El Niño intensificou o transporte de umidade e favoreceu a permanência de frentes frias sobre o Rio Grande do Sul, contribuindo para as enchentes que deixaram 180 mortos e atingiram 96% dos municípios do estado.
Orientações
Diante das projeções, os órgãos responsáveis pela criação do painel divulgaram um conjunto de recomendações voltadas para os governos e para a população.
Para estados e municípios, as orientações incluem:
- Revisar e atualizar os Planos de Contingência contra desastres;
- Reforçar os sistemas de monitoramento, alerta e comunicação de riscos;
- Ampliar a articulação entre os órgãos de Defesa Civil, recursos hídricos, meio ambiente, saúde, assistência social e segurança pública;
- Identificar com antecedência quais equipes, equipamentos e recursos estarão disponíveis para uma resposta rápida em caso de emergência.
Para a população, as orientações são:
- Manter atualizado o cadastro para recebimento de alertas da Defesa Civil local;
- Conhecer previamente as áreas de risco e as rotas de fuga da própria região;
- Adotar medidas de autoproteção sempre que houver previsão ou ocorrência de eventos climáticos adversos, como chuvas fortes, vendavais ou estiagem;
- Acompanhar continuamente os avisos e boletins divulgados pelos órgãos federais e estaduais responsáveis pelo monitoramento do fenômeno.
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