O uso da vírgula para separar vocativos, como em “Oi, João”, passou a ser relacionado ao estilo de textos produzidos por inteligência artificial após debates recentes nas redes sociais. A discussão ganhou destaque quando uma usuária da plataforma X (antigo Twitter) afirmou ter percebido a repetição desse padrão em mensagens, principalmente após a popularização do ChatGPT.
A discussão começou após uma publicação questionar o aumento do uso da vírgula depois de saudações acompanhadas de nomes próprios. No entanto, especialistas destacam que essa forma de pontuação está de acordo com as regras da norma-padrão da língua portuguesa.
“A vírgula depois do ‘oi’ me incomodava muito e não entendia por que, do nada, todo mundo começou a escrever assim. Até que caiu a ficha: o ChatGPT escreve assim”, dizia a publicação, que foi excluída.
Por que a vírgula no vocativo causa estranheza?
O aumento do uso da vírgula para separar vocativos transformou expressões simples, como “Oi, Vanessa” ou “Obrigado, João”, em motivo de debate. Conforme explicou Silvia Maria Brandão, doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP e consultora da Arco Educação na reportagem do G1, esse tipo de separação serve para sinalizar com quem o interlocutor fala.
O vocativo é o termo utilizado para chamar, invocar ou dirigir a fala diretamente a uma pessoa, animal ou entidade. Na estrutura da frase, ele deve ser destacado por vírgulas, podendo aparecer no início, no meio ou no final da oração.
A marcação ganhou destaque porque, segundo relatos, era costumeira sua omissão no cotidiano digital. Ao longo do tempo, usuários passaram a associar o uso mais fiel à gramática a textos automatizados ou produzidos por inteligência artificial.

Imagem: Blog Pensar Cursos
Funções da vírgula além do vocativo
Na norma culta, a vírgula é utilizada para múltiplas finalidades estruturais no texto: indicar o tempo ou lugar no início da frase (“Ontem, Pedro me ligou”), separar itens de uma lista (“Comprei pão, leite e café”), introduzir o aposto explicativo (“Carlos, meu colega, viajou”) e anteceder conjunções adversativas (“Queria sair, mas estava tarde”).
Fábio Aquino, professor de português do colégio PB, da Inspira Rede de Educadores, ressalta também na reportagem do G1 que, nas orações, a vírgula no vocativo cumpre papel fundamental para impedir ambiguidades. Com ela, fica claro o destinatário; sem ela, o sentido pode mudar.
Ambiguidade causada pela ausência da vírgula
O não uso da vírgula em frases que contêm vocativos pode criar duplos sentidos. Silvia Brandão exemplifica: “É preciso de regime, militar” indica interlocução direta com um militar; já “É preciso de regime militar” discute um tema político, sem chamar ninguém. Assim, a pontuação correta elimina dúvidas e garante clareza, principalmente em comunicações formais.
A especialista destaca que, na linguagem falada, a entonação cumpre o papel da vírgula. No entanto, na escrita, principalmente em contextos oficiais e documentais, a ausência desse sinal gráfico pode comprometer o entendimento.
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O estilo de escrita adotado por ferramentas de inteligência artificial segue as normas gramaticais da língua portuguesa, incluindo o emprego de vírgulas. Plataformas como o ChatGPT são treinadas para aplicar regras de pontuação, o que pode fazer com que estruturas antes mais restritas a textos acadêmicos e formais apareçam com maior frequência em conversas digitais.
Por isso, o aparecimento de vírgulas em vocativos pode causar estranhamento entre usuários, mas não significa necessariamente que uma mensagem foi gerada por inteligência artificial. Ainda assim, segundo Fábio Aquino, determinadas combinações de escolhas linguísticas e padrões de escrita podem indicar, em alguns casos, a possibilidade de uso dessas ferramentas.
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